Terça-feira, 3 de fevereiro de 2026 Login
O século XXI não é marcado apenas por crises agudas, mas por um tipo de adoecimento que se constrói lentamente, sem alarde e fora do radar das emergências. Obesidade, desequilíbrios hormonais e transtornos mentais formam um tripé de condições crônicas que cresce de maneira simultânea e interligada, alterando de forma profunda a experiência contemporânea de saúde e doença. Mais do que fenômenos isolados, essas três pandemias silenciosas revelam o esgotamento de um modelo de cuidado que trata sintomas de forma compartimentalizada e perde de vista o organismo como um sistema integrado.
A dimensão desse cenário já aparece nos números. De acordo com o World Obesity Atlas 2025, da World Obesity Federation, cerca de 31% da população adulta brasileira vive hoje com obesidade, e aproximadamente 68% apresentam excesso de peso. O fenômeno não é isolado. Globalmente, mais de 1 bilhão de pessoas convivem com obesidade, entre elas, 880 milhões de adultos e 159 milhões de crianças e adolescentes, e quase 3 bilhões já apresentam sobrepeso ou obesidade, segundo a entidade.
As projeções indicam um cenário ainda mais desafiador. Se as tendências atuais forem mantidas, até 2030 quase metade dos adultos brasileiros poderá viver com obesidade, com crescimento significativo entre homens e mulheres, aponta o mesmo relatório. Os dados ajudam a compreender por que especialistas tratam a obesidade como uma pandemia crônica, silenciosa e progressiva, com efeitos que ultrapassam o peso corporal e alcançam o metabolismo, os hormônios e a saúde mental.
Para a médica endocrinologista e PhD Alessandra Rascovski, autora de AtmaSoma – O equilíbrio entre a ciência e o prazer para viver mais e melhor, a expansão dessas condições está diretamente ligada à forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos com o próprio corpo.
“O que chamamos hoje de epidemias não infecciosas é, na verdade, a expressão biológica de um modo de vida que rompeu o diálogo com os ritmos naturais do organismo. Dormimos pouco, comemos mal, vivemos sob estresse constante e cobramos desempenho contínuo de um corpo que precisa de alternância entre estímulo e recuperação. O resultado é um sistema que passa a funcionar em compensação permanente”, afirma.
O adoecimento que nasce da fragmentação
A obesidade contemporânea não pode mais ser compreendida apenas pelo balanço entre calorias ingeridas e gastas. Ela se estabelece em um terreno de inflamação crônica, resistência à insulina, privação de sono, estresse persistente e alterações hormonais que se reforçam mutuamente. Da mesma forma, distúrbios hormonais, muitas vezes tratados como eventos pontuais ou restritos a fases específicas da vida, afetam diretamente cognição, humor, metabolismo e comportamento, interferindo na capacidade de adaptação do indivíduo ao cotidiano.
Nesse contexto, os transtornos mentais deixam de ser um campo separado da saúde física. Dados recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que mais de 1 bilhão de pessoas vivem hoje com algum transtorno de saúde mental, incluindo ansiedade e depressão. Essas condições não apenas coexistem com alterações metabólicas e hormonais, como também as intensificam, influenciando decisões alimentares, níveis de atividade física, qualidade do sono e processos inflamatórios.
“Quando se tenta tratar apenas o sintoma (o peso, o exame alterado ou a queixa emocional) sem entender o sistema que sustenta aquele desequilíbrio, a intervenção se torna limitada e frequentemente frustrante”, observa Rascovski, que também é diretora médica da clínica Atma Soma.
Reconstruir o cuidado a partir do corpo real
Alessandra Rascovski defende uma mudança de eixo no cuidado em saúde: sair da lógica corretiva e reativa para uma abordagem que reconheça o corpo como um sistema vivo, capaz de sinalizar seus limites muito antes do adoecimento se instalar. Para a médica, a saúde não se organiza em protocolos isolados, mas em interações contínuas entre metabolismo, sistema neurocognitivo, hormônios, ambiente e história individual.
O avanço das pandemias silenciosas, segundo a endocrinologista, é também consequência de uma cultura que normalizou o cansaço persistente, o sono insuficiente, a irritabilidade e a falta de energia como parte inevitável da vida adulta. “Esses estados não são neutros. São sinais de um organismo em adaptação constante, operando no limite, muitas vezes por anos, até que o corpo deixe de compensar”, explica.
Ao destacar a importância do autoconhecimento, da avaliação consistente de indicadores de saúde e da reorganização de hábitos possíveis dentro da vida real, a especialista aponta para um caminho de prevenção que não se apoia em soluções rápidas ou intervenções pontuais, mas em escolhas sustentáveis ao longo do tempo. “Enfrentar essas pandemias exige recuperar algo que a medicina e a sociedade perderam: a escuta do corpo e o respeito aos ciclos. Cuidar da saúde é um processo, não um evento isolado”, conclui Rascovski.