Terça-feira, 3 de fevereiro de 2026 Login
Dona Conceição está em casa. Depois de 214 dias de internação — sendo 211 deles na Unidade de Terapia Intensiva — ela voltou ao convívio da família nesta quinta-feira, 29 de janeiro, encerrando uma das histórias mais longas e emocionantes já vividas pelo Hospital Cemil – Associação Beneficente São Francisco de Assis, em Umuarama, no noroeste do Paraná.
A saída do hospital foi marcada por silêncio emocionado, lágrimas contidas e aplausos espontâneos. Médicos, profissionais da equipe multidisciplinar e colaboradores de diversos setores se reuniram para se despedir de uma paciente que, ao longo de sete meses, deixou de ser apenas um prontuário e se transformou em parte da história e da vida de todos que participaram de sua recuperação. Ali, não se celebrava apenas uma alta hospitalar, mas a vitória da perseverança, do cuidado humanizado e da fé que sustentou paciente, família e equipe nos momentos mais difíceis.
Conceição Aparecida, 67 anos, moradora de Iporã, foi internada em estado gravíssimo após um quadro de chikungunya evoluir para uma condição neurológica rara e severa: a Encefalite de Bickerstaff. No dia 19 de junho de 2025, após apresentar sintomas semelhantes aos da dengue e, posteriormente, formigamento nas mãos e nos pés, Conceição foi levada ao Hospital Municipal de Iporã. Sem melhora clínica, voltou para casa. Na madrugada do dia seguinte, foi encontrada pelos filhos inconsciente, sem respostas motoras. Entubada às pressas, foi transferida pelo Samu para a UTI do Hospital Cemil, onde foi estabilizada.
O quadro era extremamente delicado. Tetraplegia, alterações oculares e rebaixamento importante do nível de consciência levantaram, inicialmente, suspeitas severas. “Foi um diagnóstico muito difícil. Aqui no hospital, não tínhamos nenhum caso semelhante. Quando ela chegou, chegou-se a suspeitar até de morte encefálica”, relembra a médica pneumologista Dra. Karina Farah, que acompanhou de perto toda a evolução clínica da paciente. A confirmação veio após um trabalho conjunto envolvendo equipe multidisciplinar e profissionais de outras instituições: Conceição estava há mais de 20 dias com febre de chikungunya, condição que desencadeou a encefalite autoimune, uma complicação rara e potencialmente fatal.
Durante 11 dias, ela permaneceu em coma. O primeiro sinal de esperança veio em um gesto quase imperceptível, mas carregado de significado. Ao ouvir o filho pedir que, se estivesse escutando, mexesse a cabeça, Conceição respondeu. Um movimento simples, que reacendeu a fé da família e da equipe. “Ali, pela primeira vez, acreditamos que aquele quadro poderia ser revertido”, lembra Reginaldo Gomes, filho da paciente.
A partir daquele dia, iniciou-se uma longa e paciente jornada de recuperação, marcada por pequenos avanços, desafios diários e, sobretudo, por uma relação profunda de confiança entre família e profissionais de saúde. Para a Dra. Karina, Dona Conceição deixou uma lição que ultrapassa a medicina. “Mesmo nos momentos mais difíceis, ela nunca reclamava. Sempre demonstrava gratidão e carinho pela equipe. Foi uma paciente que ensinou muito a todos nós.”
No momento da alta, a gratidão também veio em palavras emocionadas da família. Reginaldo fez questão de agradecer a todos que participaram do cuidado. “A cada um que cuidou da nossa mãe, nossa eterna gratidão: médicos, enfermeiros, técnicos, o pessoal da copa, da limpeza… enfim, a todos que nos acolheram e cuidaram não só da nossa mãe, mas de todos nós, com carinho, respeito e empatia.”
Hoje, em casa, Dona Conceição segue em recuperação, cercada pelo amor da família e pela memória de uma trajetória marcada pela resistência silenciosa, pela fé inabalável e por um cuidado que foi além da técnica. Sua história reafirma que, mesmo diante de diagnósticos raros e prognósticos incertos, o tratamento humanizado, o acolhimento e a perseverança são capazes de sustentar vidas — e de transformar profundamente todos os envolvidos nesse caminho.
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